sábado, 16 de janeiro de 2010

Grande viagem a uma pequena escala...

A azáfama começa bem cedo. À medida que os nomes vão desaparecendo da longa lista nas mãos do papá, o monte de objectos à porta de casa vai crescendo de forma assustadora. Quando finalmente, depois de uma luta titânica entre o meu pai e a mala do carro, tudo fica pronto, a mamã traz a minha almofada e eu deito-me no banco de trás: estou pronta para a grande viagem! Olho pela janela de trás do carro e sorrio; ali vêm eles... Aceno freneticamente e recebo em resposta quatro acenos e sorrisos rasgados em quantidade idêntica! Como é bom ir de férias... Acordo de um longo sono, quando entramos em Lisboa. A mamã fala e a sua voz parece-me mais suave e meiga do que nunca. Subimos a rampa em caracol para grande agrado meu e grande insatisfação da minha mãe e estacionamos no parque. Estamos todos exaustos, mas continuo a sentir-me a pessoa mais feliz do mundo! Corro para a entrada do prédio e sou a primeira a chegar ao elevador. Só é pena o botão ser tão alto... Entramos no elevador, que nos leva ao 8º andar. Corro até à porta e bato vivamente. Do outro lado, surge uma voz risonha: "Quem é?"; como ritual, respondo: "A Canina" e sorrio. A voz soa tão familiar do outro lado: "Canina?" e, então, faço o enorme esforço para dizer "A Calulina!". A porta abre-se com uma gargalhada genuinamente carinhosa e corro para os seus braços! Vou sentar-me no banco da cozinha, esperando que me venham dar a tão ansiada fatia de bolo de côco. Sabe-me pela vida... E a seguir vem o jantar à volta da mesa redonda e o magnífico serão embalado por gargalhadas e carinho. Com o avançar da hora, todos começam a ir deitar-se e eu sei que chegou a hora de fazermos o nosso ninho no chão da sala... Ficamos acordadas até muito tarde, com a luz apagada, a contar histórias e a rir. Finalmente, somos vencidas pelo sono e acabamos por adormecer. Acordo com o cheiro do pão fresco e do café com leite a fumegar em cima da mesa. Como é possível que ela se tenha conseguido levantar tão cedo, se adormeceu tão tarde quanto eu? Admiro-a. Depois do almoço, voltamos a partir rumo à Casinha. Somos mais, agora! A viagem é muito mais rápida que a do dia anterior. Quando pisamos os paralelos lustrosos de tão gastos, inspiro fundo toda a paz que me rodeia. Chegou o momento de sermos apenas nós: eu e eles. Sinto que tenho tudo o que sempre quis! Segue-se um dia de limpezas tão aterefado quanto divertido. Já bem instalados, começamos finalmente a usufruir das férias. E aí nos apercebemos que, no fundo, elas já começaram há muito, desde que o primeiro objecto foi adicionado à lista de "coisas para levar para o Algarve". Os almoços na praia, as manhãs inteiras passadas na água, as brincadeiras na areia, os banhos com a água quentinha dos garrafões no quintal, os jantares à volta da grande mesa, os longos serões de conversa improdutiva e genuinamente bem disposta... Tudo são recordações que me fazem sorrir! Como tenho saudades de ser pequena e de ver tudo a uma escala gigantesca!